Medicina Conectada: o que esse conceito impacta no consultório?

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Cada vez mais em evidência desde que a Telemedicina ganhou espaço com a pandemia de Covid-19, a Medicina Conectada se incorpora ao dia a dia da Saúde e abre várias possibilidades

 

Com o passar dos anos, o avanço da sociedade e das tecnologias e a necessidade de velocidade dos dias de hoje impulsionaram a evolução das mais diversas áreas. A Medicina, como setor primordial para o bem-estar social, não poderia deixar de acompanhar esse avanço para atender as demandas dos novos tempos. Em meio a essa evolução, surgiu o conceito de Medicina Conectada.

A Medicina Conectada é a Medicina atual incorporada aos recursos de Telemedicina, potencializando assim a forma de cuidado. É o que explica Chao Lung Wen, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Telemedicina e Medicina Conectada. “A Medicina Conectada é uma Medicina híbrida, e ela tem foco em três pontos fundamentais: agilizar o processo de resolução de problemas, reduzir desperdícios e aumentar a acessibilidade. Esses três pontos principais – ou esse tripé – são os que melhoram a eficiência do sistema de saúde como um todo e, naturalmente, o que teremos é um aumento da capacidade funcional da Medicina, nos sistemas hospitalares, com a mesma infraestrutura, podendo assim atender muito mais pessoas e com melhor qualidade”, elucida.

Medicina conectada

A Medicina Conectada tem a possibilidade de criar uma rede de centros de excelência para o compartilhamento de conhecimentos e para agilizar as melhores decisões em relação aos pacientes por meio de Teleinterconsulta especializada e juntas médicas à distância (telejuntas). No Brasil, essa modalidade ainda é, de certa forma, uma novidade.

“É um fato que uma parte importante da organização da Telemedicina no Brasil ocorreu no período de 2005 a 2015, que podemos chamar de década da Telemedicina Acadêmica Governamental, quando as principais iniciativas surgiram a partir das universidades e de ações governamentais, como as do Ministério da Saúde. Na pandemia, tivemos mais a adoção e a popularização da Telemedicina, pois uma boa parte dos conceitos e da organização já existia. A pandemia de Covid-19 apenas acelerou o motivo da utilização da Telemedicina, considerando que tínhamos um processo de quarentena e isolamento”, explica Wen.

Entretanto, apesar do crescimento da Telemedicina nos últimos anos, nem tudo correu da forma mais adequada. Algumas grandes corporações acabaram reduzindo o conceito de Telemedicina a, simplesmente, uma teleconsulta, o que banalizou, de certo modo, a modalidade de atendimento.

Impacto positivo

O impacto da Medicina conectada no dia a dia do atendimento médico vai além da possibilidade de consultas virtuais. Como pontuado por Wen, é importante lembrar que uma consulta sozinha não resolve a maioria dos problemas. No acompanhamento de um paciente, é realizado um conjunto de consultas com solicitação de exames de apoio a diagnóstico, prescrição de medicamentos, acompanhamento de resultados e outros aspectos. Além disso, cabe aos médicos checar a adesão do paciente ao tratamento proposto e se ele entendeu corretamente o que deve fazer.

Cada um desses pontos pode ser feito de forma otimizada e mais rápida com o avanço do uso das tecnologias na Medicina. Por meio de aplicativos, plataformas de atendimento e registros digitais, os pacientes podem receber feedbacks mais rápidos e se conectarem com seu médico mais vezes, além de terem acesso a todos os seus dados de saúde em qualquer lugar. Essas possibilidades apontam para o futuro da Medicina com diagnósticos mais precisos e um acompanhamento mais próximo do paciente.

Telemonitoramento e cuidado

Dentro da Medicina conectada, um dos aspectos mais importantes e que vale ser ressaltado é a possibilidade do telemonitoramento dos pacientes. Além de permitir o atendimento caso o paciente esteja viajando – seja por lazer ou a trabalho – o telemonitoramento proporciona um controle maior de sua condição de saúde.

Para alguns pacientes, a Medicina feita de forma remota pode ser ainda mais importante. É o caso de idosos ou pessoas com condições crônicas, em que evitar o deslocamento físico pode não apenas ser uma questão de economia de tempo ou recursos, mas uma necessidade. O deslocamento físico desses pacientes pode simbolizar um obstáculo não só para a pessoa, mas também para seus acompanhantes.

Especialmente aqui, a Medicina Conectada facilita a jornada de cuidado do paciente e sua família – sem perda de qualidade e possibilita que o paciente apenas rume para a atividade presencial quando realmente necessário. “A moderna Medicina Conectada é a Medicina sem distância, que nos permite cuidar de uma forma efetiva dos pacientes, independentemente do local que estejam”, conceitua Wen.

Barreiras

Apesar do distanciamento físico entre o médico e o paciente durante teleatendimentos, no dia a dia do consultório, as tecnologias que possibilitam o uso da Telemedicina aproximam mais do que afastam. É um equívoco pensarmos que, por causa da distância física, o relacionamento médico-paciente não poderá se desenvolver.

Wen reforça que, na Medicina Conectada, pode existir um cuidado híbrido entre atendimento presencial combinado com videoatendimento. Com aumento da facilidade de interação, pode-se ter um acompanhamento mais frequente e mais bem planejado independentemente da forma de conexão do médico com o seu paciente, o que proporciona um cuidado maior, seja qual for o local físico onde cada um esteja.

Embora existam barreiras, como a falta de contato físico quando a Medicina é exercida de forma remota, ela por si só não desumaniza o atendimento médico. “Toda questão da humanização não está relacionada com o “olho no olho”, mas com o vínculo que o médico estabelece na sua preocupação e na responsabilidade em relação ao bem-estar do paciente. Um médico qualificado com boa habilidade de comunicação consegue humanizar muito mais com o uso das tecnologias interativas”, ressalta o especialista.

Logo, não é preciso temer ou “vilanizar” seu uso. A Medicina Conectada transpõe barreiras e o ponto principal é que o profissional busque desenvolver suas habilidades de relacionamento com os pacientes como um todo, no presencial e no virtual.

Segurança de dados

Para o médico, a maior facilidade no compartilhamento de dados, no entanto, traz consigo a necessidade redobrada de adotar medidas para garantir a segurança dos dados do paciente e seu sigilo, como consta no Princípio XI do Código de Ética Médica (CEM).

Medicina conectada

Para a boa utilização das ferramentas da Telemedicina, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) traz as diretrizes que devem ser seguidas para evitar vazamento de dados e proteger as informações pessoais do paciente, o que podem gerar, em consequência, multas e sanções. Um dos principais pontos da lei é a categorização dos dados de saúde como dados sensíveis que, por isso, devem ser tratados com cautela redobrada e não podem ser compartilhados sem a autorização do paciente.

No teleatendimento, por exemplo, é crucial utilizar plataformas adequadas e atualizadas, para prevenir vazamentos de dados, além da necessidade de o paciente e/ou responsável assinar antes das consultas um Termo de Concordância e Autorização para Telemedicina e, no caso de pacientes menores de idade ou incapazes, do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE).

Por isso, antes de implementar as ferramentas da Telemedicina em seu dia a dia, o médico deve se atualizar sobre as diretrizes atuais e o que deve ser feito para o exercício responsável do cuidado com os pacientes.

O futuro já chegou

Quando olhamos ao nosso redor, podemos constatar o quanto o avanço da tecnologia traz praticidade para o nosso dia a dia. Desde a facilidade de comunicação até o acesso à informação, por exemplo, é difícil imaginarmos nossas vidas sem a presença tecnológica. Evidentemente que na Medicina não seria diferente: a Telemedicina já é uma realidade e conta com diversas ferramentas de tecnologia avançada.

Uma dessas ferramentas é o ConecteSUS, um aplicativo do Ministério da Saúde que registra toda a trajetória do paciente no Sistema Único de Saúde (SUS). Além de reunir o histórico do paciente, o aplicativo permite consultar exames realizados, agendamentos, carteira de vacinação e informações sobre doação de sangue, por exemplo. O aplicativo oferece um conceito mais atualizado dentro da Medicina, substituindo a antiga “sacola de exames”, que muitas vezes se perdia e prejudicava o andamento dos tratamentos, além de sua falta de praticidade.

Durante a pandemia de Covid-19, com a função de disponibilizar a carteira de vacinação direto de um smartphone, ficou evidente a facilidade que o aplicativo proporciona aos pacientes. Porém, o uso do aplicativo não oferece benefícios apenas para eles. Ter reunido em um só lugar todo o histórico do paciente e com acesso facilitado permite ao médico compreender melhor o quadro do paciente e qual tipo de tratamento é o mais adequado.

Próximos passos

De acordo com Wen, entre 2026 e 2027, a Medicina Conectada deve passar a ser chamada de Medicina sem distância. “Precisamos, acima de tudo, pensar em como as tecnologias, as plataformas e as ferramentas podem estar inseridas em uma cadeia de circuito para melhorar a jornada de cuidado de um paciente”, avalia.

Wen explica que não devemos confundir a Telemedicina com as suas ferramentas. O ConecteSUS, por exemplo, apesar de oferecer grande auxílio para médicos e pacientes, não representa a Medicina Conectada, pois esta vai muito além. “Se o ConecteSUS quer, no futuro, se transformar em um ecossistema digital para provimento de serviços de logística em Saúde, precisará criar vários outras funcionalidades , como salas digitais seguras para videoatendimentos , e um sistema que proporcione as interconsultas de especialidade e que permita o intercâmbio de dados de paciente entre plataformas diferentes de prontuários eletrônicos, entre outros recursos”, esclarece.

Um ponto importante que deve receber atenção é a formação dos médicos, o que atualmente é carente em conhecimentos e habilidades para o exercício da Telemedicina. Para o avanço dessa área, é necessário que não haja improvisos e que os profissionais estejam qualificados para atuarem nela. “Todos os médicos que forem exercer a Telemedicina deveriam ter um curso formativo na área de Teletecnologias Assistenciais e Telepropedêutica, para garantir a qualidade do atendimento”, pontua o especialista.

As possibilidades da Medicina conectada são diversas. No entanto, um ponto que deve receber maior atenção é o cuidado com a prevenção de doenças. Para isso, a utilização do telemonitoramento e da teleorientação será uma grande aliada para a promoção da saúde. “Não podemos esquecer que estamos tratando de doenças demais. Precisamos criar uma grande estratégia para evitar que as pessoas fiquem doentes”, defende Wen.

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