O futuro chegou na Medicina

Bruno Aires 12 minutos

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No consultório, hoje, os nativos digitais já estão sentados nos dois lados da mesa: são os pacientes que chegam após pesquisas na internet e os médicos que cresceram com a tecnologia que vem revolucionando a Saúde. A seguir, falamos sobre como os nativos digitais vêm gerando problemas para o os médicos e como os profissionais têm contornado esses obstáculos

Imagine você nascer em um mundo analógico, sem nenhuma das tecnologias que temos hoje. Internet? Redes sociais? Mídias digitais? Nada disso existe no mundo no qual você acaba de chegar. E se, em vez de nascer nessa era sem tecnologia, você nascesse em um momento em que a internet já invadiu todos os aspectos da vida das pessoas? Para onde quer que se olhe, a tecnologia e o mundo digital estão presentes.

Pois é, são duas realidades distintas: de quem nasceu em um mundo analógico e de quem é um nativo digital. Hoje, nos consultórios, clínicas e hospitais, essas duas gerações chegam a conviver em alguns momentos, tanto como médicos quanto como pacientes. O encontro dos nativos digitais com os “pré-digitais” pode ser interessante, assim como pode gerar obstáculos e desafios.

Quem são os nativos digitais?

A expressão “nativos digitais” foi criada em 2001 pelo educador e pesquisador norte-americano Marc Prensky para descrever a geração de jovens nascidos a partir da disponibilidade de informações rápidas e acessíveis na internet. Com a popularização da internet no Brasil no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000 – principalmente a partir do crescimento das redes sociais (primeiro, o Orkut e, em seguida, o Facebook) – nasceu a primeira geração de nativos digitais brasileiros. Hoje, essas pessoas têm de 20 a 30 anos. Já as pessoas que estão perto dos 40 anos são consideradas imigrantes digitais, pois viram a internet entrar em suas vidas ainda na infância ou na adolescência e se adaptarem muito bem a ela.

o futuro chegou na medicina

A familiaridade e a desenvoltura com que os nativos digitais lidam com a tecnologia não significam, porém, que eles sabem lidar bem com as informações que encontram na internet. Uma pesquisa divulgada em 2021 pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostrou que os nativos digitais são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos on-line, localizar materiais confiáveis em buscas na internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo distinguir fatos de opiniões. O estudo colheu informações em 79 países.

Nativos digitais na Saúde

Todas as características dos nativos e imigrantes digitais também se fazem presentes quando essas pessoas são atendidas em consultórios, clínicas e hospitais. Afinal, essa é uma geração que já está nos consultórios como pacientes (sejam como crianças, adolescentes ou adultos jovens) e até mesmo como profissionais de Saúde. Vamos lembrar que estamos falando de pessoas nascidas a partir de 1980 (imigrantes digitais) ou a partir de 2000 (nativos digitais).

Uma pesquisa realizada em 2017 com 562 nativos digitais na Áustria mostrou como a relação com os médicos acaba impactada quando o paciente convive com a tecnologia desde que nasceu. Dos entrevistados nesse estudo, 79% deles disseram que gostariam de se envolver mais nas decisões relacionadas a sua própria saúde. Apenas um quarto deles afirma que o conhecimento adquirido na internet facilita a comunicação com seu médico. Por outro lado, 18% deles contam que falar com o médico sobre alguma informação encontrada na internet acaba gerando um obstáculo na relação entre eles.

Na mesma pesquisa, só 8% dos pacientes revelam que seus médicos indicam sites confiáveis para eles saberem mais a respeito de seus problemas de saúde. Já 40% afirmam que gostariam de receber de seus médicos recomendações para páginas sobre saúde. Por fim, mais da metade dos entrevistados geralmente consulta a internet para buscar mais informações após a consulta e, entre estes, 28% dizem que fazem isso porque receberam pouca orientação dos seus médicos.

Para o oftalmologista Pedro Carricondo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), independentemente da geração, o paciente hoje já chega no consultório após usar os mecanismos de busca na internet para se informar sobre uma doença ou sobre um tratamento indicado. “Todas as pessoas que hoje têm contato com a internet usam a tecnologia para entender melhor sobre a sua própria saúde. Isso, claro, acaba gerando uma série de problemas, porque na internet não há filtro. O leigo não sabe se aquela informação é real ou não”, afirma.

O oftalmologista concorda que os nativos digitais são os que mais usam a internet para buscarem informações – e, por isso mesmo, até ajudam outras gerações, como os pais e avós, nessa busca. “Nós, médicos, temos que aprender a trabalhar com o paciente que chega com informações. Entre outras coisas, o que temos que fazer é indicar onde e como ele deve procurar essas informações. Eventualmente, é bom que o médico já tenha pronta uma lista de sites confiáveis, sobre os assuntos mais comuns abordados nas consultas. Assim, ele pode indicar melhor seus pacientes”, orienta Carricondo.

O futuro chegou na medicina, Nativos digitais

Conflitos e avaliações

O uso da internet para a busca de informações é algo que se disseminou junto com a democratização tecnológica vista no Brasil a partir dos anos 2000. Segundo Carricondo, muitos médicos ficam incomodados quando o paciente chega ao consultório com informações oriundas de sites e blogs. Porém, o oftalmologista orienta que o ideal é o profissional estar aberto ao que chega a sua frente.

“No consultório, o tempo todo, precisamos estar atentos ao que o paciente traz. Muitas vezes, o médico e o paciente são de gerações diferentes, por isso é preciso que haja um bom relacionamento entre eles. Os nativos digitais fazem pesquisas na internet para tudo: para comprar um computador, assistir a um vídeo, entender sobre uma doença ou até escolher um médico. É assim que agem. O que precisamos fazer é compreender e orientar da melhor maneira possível sobre as informações que eles encontram”, defende.

Essa forma de buscar informações acaba também levando o médico a ser alvo de buscas na internet. Alguns profissionais, inclusive, e não sabem como lidar com avaliações que circulam na internet sobre eles. “No dia a dia, percebemos que os pacientes já chegam sabendo sobre nós, porque pesquisaram a respeito, leram o currículo ou viram uma entrevista. Isso levou muitos profissionais a usarem muito mais as redes sociais, nem sempre da maneira adequada, o que é um outro problema”, lamenta Carricondo.

Segundo o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo Ambulatório de Tratamento de Dependentes de Comportamentos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o chamado “Dr. Google”, muitas vezes, não é o maior problema que o médico enfrenta no consultório. “O paciente já chega na consulta pedindo uma receita e não um diagnóstico. Isso porque recebeu um vídeo no WhatsApp e acredita naquilo que recebeu. Para mim, isso é uma falsa democratização do conhecimento”, critica o psiquiatra.

Vieira Júnior ressalta que, obviamente, existem pacientes que respeitam os profissionais da Saúde, pois sabem que são pessoas que se prepararam há anos para estar naquela posição e têm autoridade para dar um diagnóstico e prescrever um tratamento – mesmo que não sejam aqueles que foram “indicados” na internet. Mesmo com críticas e com os conflitos gerados, o psiquiatra ressalta que os recursos tecnológicos têm o seu lado positivo.

“A tecnologia pode ser boa ou ruim, depende do uso que se faz dela. Se os recursos forem bem usados, isso pode ser fantástico. Hoje, o médico consegue ler um artigo científico com muita facilidade, de qualquer lugar do mundo. Na minha época de faculdade, era preciso ter um computador – geralmente sem Windows e de tela verde – e um disquete com o artigo copiado por um professor ou colega. O problema é que a Medicina foi perdendo algo que as gerações mais antigas tinham: a propedêutica, ou seja, o ato de tocar o paciente e examiná-lo. Era um jeito menos preguiçoso de ser fazer um diagnóstico”, avalia Vieira Júnior.

O psiquiatra cita outra característica dos recursos tecnológicos: a proximidade com quem está longe e o distanciamento de quem está perto. “A tecnologia permite à pessoa fazer amigos e contatos em outras cidades ou outros países. Mas o ruim é quando isso provoca um empobrecimento na vida da pessoa. Ela não fala mais com os vizinhos, não joga bola com os amigos ou não tem vida social. A vida dela é só virtual. Cria-se uma ilusão: ela tem 40 mil amigos no Instagram, mas fora do virtual isso não existe”, analisa.

Por fim, Vieira Júnior critica o que ele chama de “Era da Telemedicina”, pois esse recurso estaria precarizando a Medicina. “Não compro isso. Estão usando um nome bonito para precarizar – ‘uberizar’ – a Medicina. Assim como o Uber precarizou as condições de trabalho, a Telemedicina vem precarizando a experiência médica. Sou psiquiatra, de uma especialidade que pouco toca os pacientes. Tudo que faço é conversar com eles. Mesmo assim, vejo que há uma perda muito grande com o virtual”, lamenta.

Como a tecnologia envolve?

Os nativos digitais já nasceram no mundo tecnológico e, de maneira natural, acabam se envolvendo com os recursos que se apresentam a eles. A pediatra Evelyn Eisenstein, membro do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Rede Universitária de Telemedicina (Rute), explica que há quatro recursos bastante utilizados para levar as pessoas a se envolverem com a internet, redes sociais, mídias digitais e outros recursos tecnológicos.

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“Primeiro, as pessoas, hoje, têm um deslumbramento com as telas. Tudo é bonito e colorido, levando a pessoa a ficar conectada com aquilo o tempo inteiro. A linha que separa o real do virtual fica cada vez mais sutil. Além disso, há o uso de técnicas de persuasão e de recompensa, incentivando a pessoa a querer ‘cada vez mais’ – cada vez mais pontos no jogo eletrônico, mais likes nas postagens, mais seguidores nas redes sociais. No final, isso é monetizado. O processo acaba sendo cerebral, de estímulo à produção de dopamina, tornando a pessoa um dependente daquela ‘droga’, que é a tela”, explica Evelyn.

A pediatra conta que, recentemente, uma paciente adolescente chegou no consultório contando que estava fazendo uma dieta vista na internet, em que consumia apenas 300 calorias por dia (quando o recomendado varia de 1.200 a 3.900 calorias diárias, dependendo do sexo e da idade). Ela citou o caso para exemplificar como pode ser difícil para muitos profissionais, hoje, orientar os pacientes sobre o uso da internet.

“Como você separa um lixo digital da realidade? O Dr. Google traz problemas. A internet é um espaço público e aberto. Crianças e adolescentes não entendem o que é uma fonte confiável, assim como as gerações de pais e avós deles também não entendem. Cabe ao médico explicar na consulta o que é essa fonte confiável. O médico, muito além de ser responsável apenas por fechar um diagnóstico, é um educador. A desinformação altera comportamentos e gera riscos”, alerta Evelyn.

A pediatra ilustra o que está falando com a imagem de uma ampulheta. De um lado, há a saúde, com qualidade de vida e bem-estar. No outro lado da ampulheta, estão as doenças, a desinformação e os danos ao paciente. Ao se virar a ampulheta para uma direção, a “areia” se acumula no lado das doenças, aumentando os riscos. Quando a ampulheta vira para o outro lado, a “areia” vai rumo à Saúde, por meio da educação do paciente.

“A internet nos possibilitou troca de informações, atualização e muitas outras coisas boas. O problema é que o paciente hoje chega no consultório ‘informado’, mas sem entender que Medicina é fazer o diagnóstico baseado em evidências, objetivamente pelo exame do corpo. O que estamos vendo hoje são pessoas superficializadas, aceleradas e com problemas comportamentais, com transtorno do sono, irritabilidade e alterações de humor”, lamenta Evelyn.

A pediatra conclui que, nesse ponto, o médico tem sua importância ainda mais valorizada. “Temos que conviver com as telas. Mas o importante é saber controlar, principalmente o que é visto e o tempo de uso. O médico tem o papel de orientar, dar alternativas saudáveis para fora das telas e ser crítico. Isso, claro, pode ser feito até mesmo com o uso da tecnologia, com canais e perfis em redes sociais. O importante é orientar o paciente”, afirma.

 

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