Gastos dos planos de saúde com atendimento voltam a níveis pré-pandemia

Juliana Temporal 6 minutos

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As despesas dos planos de saúde com o atendimento de seus beneficiários voltaram aos altos níveis anteriores à pandemia de Covid-19. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) já tinham mostrado, em julho de 2021, que as despesas das operadoras de planos de saúde para cobrir o atendimento aos beneficiários consumiram 82% das receitas, maior índice desde que o coronavírus chegou ao Brasil e mesmo percentual que havia sido registrado no segundo trimestre de 2019, ou seja, pré-pandemia. Além disso, na primeira semana de abril deste ano, especialistas que medem os custos do setor de saúde suplementar afirmaram que o reajuste de 2022 para os planos de saúde individuais, estipulado pela ANS, deve ficar entre 15% e 18,2%, devido ao aumento dos custos no último ano.

De acordo com a ANS, houve aumento no indicador de sinistralidade de caixa – índice que mostra quanto das receitas dos planos de saúde foi consumido para cobrir as despesas com o atendimento dos beneficiários – quando observados os meses de junho e julho de 2021, quando o índice ficou em 79% e 82%, respectivamente. Enquanto que houve registro de redução significativa do índice de sinistralidade de caixa no segundo e terceiro trimestres de 2020 em relação ao período pré-pandemia, e a taxa do ano ficou em 73% – oito pontos percentuais a menos que em 2019, quando a taxa ficou em 81%.

A sinistralidade de caixa em alta é resultado da retomada de uso do sistema de saúde, uma vez que houve um aumento na quantidade e na duração das internações por Covid-19, além do retorno dos procedimentos eletivos, que foram temporariamente suspensos pela ANS para que houvesse prioridade aos casos de coronavírus. Segundo dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), até fevereiro de 2021, a variação de custos estava negativa em 1,7%, o que poderia ser entendido como a opção dos beneficiários estarem adiando os procedimentos e consultas devido à pandemia. Já no segundo trimestre de 2021, houve aumento da despesa per capita para serviços ambulatoriais (23,3%), exames (20,8%) e internação (20,0%).

Mesmo com a pandemia, retomada dos procedimentos eletivos desencadeou alto índice de despesas para operadoras de saúde

Na época da divulgação dos dados da ANS, em julho de 2021, a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) já via com preocupação o aumento de gastos. Segundo a entidade, os números refletiam o que setor vinha apresentando desde o fim de 2020, que mesmo com a pandemia, já havia uma retomada dos procedimentos não urgentes. Essas despesas, somadas aos gastos necessários para o tratamento da Covid-19, desencadearam um alto índice de despesas para as operadoras de saúde, o que poderia comprometer financeiramente a operação de muitas delas, sobretudo as de pequeno e médio portes.

Levantamento feito pela FenaSaúde, sobre o quanto as operadoras já investiram para custear o tratamento de Covid para seus beneficiários, de março de 2020 até junho de 2021, mostrou que foram R$ 16,8 bilhões pagos a hospitais, laboratórios e profissionais de saúde somente com exames de Covid e internações hospitalares (com ou sem necessidade de UTI).

Despesas assistenciais na saúde suplementar crescem 53% entre 2015 e 2019

O total de despesas assistenciais na saúde suplementar cresceu de R$ 117,2 bilhões para R$ 179,4 bilhões (valores nominais) entre os anos de 2015 e 2019, o equivalente a 53%. O acréscimo se deu pelo incremento no volume de terapias (hemodiálise, quimioterapia, radioterapia etc.) e atendimentos ambulatoriais, com aumento de 112,4% e 78,6%, respectivamente. Os dados são da “Análise Especial do Mapa Assistencial da Saúde Suplementar no Brasil entre 2015 e 2020”, publicação do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).

A análise ainda mostrou que houve avanço nas despesas com internações (54,6%), demais custos médico-hospitalares (44,1%), e exames complementares (43%). As principais variações no período foram o aumento de 57,8% nas despesas com exame de hemoglobina glicada e de 84,6% nos custos com vasectomias. Internações dia para saúde mental aumentaram de 59,4 mil para 89,3 mil (50,0%).

No entanto, a publicação também ressaltou que o ano de 2020 foi atípico, devido à pandemia de Covid-19. O setor de saúde suplementar contabilizou mais de 1,3 bilhão de procedimentos em 2020, sendo cerca de 1,18 bilhão de procedimentos de assistência médica e 153,9 milhões procedimentos odontológicos. Esse dado reflete uma retração de 17,2% em relação aos resultados do ano de 2019, que atingiu 1,6 bilhão de procedimentos de assistência médico-hospitalar e odontológica. A redução de uso do plano de saúde em 2020 mostrou que a pandemia de Covid-19 alterou a rotina das pessoas, inclusive no que diz respeito aos cuidados com a saúde.

Em 2020, o levantamento apontou para queda nos serviços nos grandes grupos de assistência: consultas médicas (-25,1%), outros atendimentos ambulatoriais (-17,4%), exames complementares (-14,6%), terapias (-23,7%) e internações (-14,7%). Comparando 2015 e 2019, o número de procedimentos de assistência médico-hospitalar passou de 1,20 bilhão para 1,43 bilhão, aumento de 18,8%.

Planos de saúde individuais: em 2022, reajuste das mensalidades pode ser o maior já determinado pela ANS

Em 2021, os planos individuais tiveram uma redução de 8,19%, devido à diminuição no uso dos serviços médicos em 2020, durante a pandemia. No entanto, segundo entidades que medem os custos do setor, como o Banco BTG Pactual, o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), a correção deste ano deve ficar entre 15% e 18,2%, superando o recorde de 13,57% de 2016. Se confirmado, o reajuste de 2022 será o maior já determinado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde que passou a regular o setor em 2000.

A justificativa das entidades para o reajuste maior é que setor de saúde suplementar registrou um aumento de custos no último ano, sendo observado um novo padrão de utilização dos serviços após a pandemia. Outro fator determinante é a alta nos preços dos medicamentos em dois anos, que chegou a quase 24%, o que também impacta nos custos das operadoras de planos de saúde.

Para a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), além da alta da inflação, do aumento das ocorrências e da forte retomada dos procedimentos eletivos, também são esperados os impactos dos atendimentos referentes à Covid longa, que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge 10% a 20% dos que contraíram a doença, o que corresponde até seis milhões de pessoas no Brasil.

 

Fonte: Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde)

 

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