Desafios e horizontes da Telemedicina

Confira as previsões de especialista para a área daqui a 10 anos e entenda como se capacitar

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A prática da Telemedicina já vem sendo desenvolvida em países com maior grau de investimento em pesquisas e saúde. Com o passar do tempo, ela foi se expandindo para os países periféricos e, atualmente, tornou-se uma modalidade muito recorrente para o exercício médico. Mais especificamente no Brasil, tivemos – durante o período pandêmico – a liberação das teleconsultas, que é uma das mais diversas possibilidades da Telemedicina. Há movimentos que visam acrescentar essa realidade para o pós-pandemia, uma vez que as práticas têm sido aprimoradas. Além disso, já há uma série de outras iniciativas brasileiras com foco em educação continuada em pleno funcionamento no Brasil há mais de dez anos, como a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE). Assim, buscamos entender quais rumos a Telemedicina tomará em 10 anos, perpassando pelos desafios que ela precisará superar e, o mais importante, o que será necessário para o exercício médico no futuro. Para isso, conversamos com o coordenador nacional da RUTE e presidente da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms), Dr. Luiz Ary Messina, e com o médico e professor, Dr. Chao Lung Wen.

A grande dúvida que paira o imaginário social é se a Telemedicina vai abolir a presencialidade nas consultas médicas. Dr. Chao desmente essa afirmativa: “Teremos os cuidados médicos de uma forma híbrida, juntando o atendimento presencial com o não presencial. Eu diria que a tendência para daqui a dez anos é uma medicina sem distância, pois não teremos mais o limite da distância física com a expansão do 5G e dos biossensores”. Já é possível observar tecnologias que realizam o monitoramento, sobretudo cardíaco, dos pacientes, como as tecnologias wearables. Foram listados inúmeros casos em que o aparelho indicou alguma alteração dos batimentos cardíacos – inclusive no Brasil – , ajudando a descobrir doenças graves. Há a expectativa de que esses dispositivos ganhem novas funções que ampliem sua capacidade de análise sobre o indivíduo. Existem, também, aplicações para celular que são capazes de monitorar algum aspecto da saúde, a exemplo de aplicativos que monitoram o ciclo menstrual. Isso evidencia que essas novas tecnologias podem funcionar como mais uma fonte de informação sobre o paciente para os médicos.

O presidente da ABTms declara que suas expectativas para os próximos dez anos são de que a Telemedicina possa estar inteiramente disponível no SUS, cumprindo o seu papel de levar saúde de qualidade às regiões mais remotas do país.

Dr. Wen relembra que “acima de tudo, a Telemedicina é um ato médico e precisa ser feito de forma responsável e eficiente”. Dessa forma, ele destaca a importância de serem instaurados limites e padrões para o exercício da modalidade, para que se preze pela qualidade em detrimento de práticas mercantilistas e banalizadas da Telemedicina. Assim, faz-se necessária uma preparação desde a universidade, uma vez que a Telemedicina exige uma nova dinâmica do exercício profissional. Outro ponto destacado pelo médico e professor é a necessidade da adoção de um sistema que possibilite o registro das informações dos pacientes na nuvem para que eles possam ser acessados de qualquer lugar – como em prontuários eletrônicos. Ele ressalta, também, que é necessário esclarecer para a sociedade que essa prática não é limitada a consultas por videochamada, uma vez que ela envolve pesquisa, métodos específicos de abordagem e novas formas de compartilhamento de dados.

“Há essa necessidade de uma conscientização cada vez maior de que a Telemedicina, a telessaúde e a saúde digital vieram para ficar. Não é modismo, é uma prática eficiente desde que sejam respeitadas a ética na área da Saúde, os profissionais estejam muito bem capacitados e as instituições, como um todo, estejam muito bem conectadas. Ainda nesse ponto das barreiras da legislação brasileira, [é importante que] na pós-pandemia sejam geridas políticas públicas adequadas ao SUS para que o Sistema Único de Saúde possa, então, atender à população com toda essa capacidade médica em saúde instalada no Brasil”, afirma Messina. Assim, é importante que sejam dadas condições para que o sistema público de saúde brasileiro possa acompanhar e se capacitar para exercer plenamente a Telemedicina.

O que muda para os médicos?

O exercício médico, em sua essência, continua o mesmo. Contudo, é necessário que ele se adapte às novas formas de lidar com os pacientes e seus dados. Dr. Chao salienta: “O ato médico vai ser modificado à medida em que todos os médicos aprendam a telepropedêutica dentro do seu conhecimento de propedêutica”. Essas modificações se fazem presentes em momentos cotidianos, como o exame do paciente que, quando presencial, tinha o contato direto com o médico. Agora, segundo Dr. Wen, “o paciente pode fazer a chamada autopalpação supervisionada pelo médico, assim como a automanobra – e a própria telepropedêutica baseada em equipamentos”. Pensando nessas modificações, listamos os primeiros passos que os médicos devem tomar desde já para que estejam capacitados para o exercício pleno da Telemedicina:

1. Compreender o que é bioética digital

Deve-se buscar cursos de Telemedicina que abordem, sobretudo, questões acerca da bioética no ambiente digital. Sabemos que a bioética é algo que acompanha o exercício médico desde os primórdios, mas, quando inserida no ambiente virtual, ela sofre alterações devido à forma distanciada da relação médico-paciente. Assim, é importante que o médico tenha em mente todas essas novas aplicações para a manutenção da qualidade do trabalho prestado.

2. Entender a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)

Para que o médico possa garantir a segurança dos dados de seus pacientes – não só no ambiente virtual, mas também em seu consultório –, é importante que ele compreenda os padrões da lei. Além da proteção de dados, ele está se protegendo de futuros problemas jurídicos em casos eventuais de vazamentos. De forma geral, a LGPD define que haja transparência entre médico e paciente em relação ao manejo desses dados, incluindo informações sobre compartilhamento, registro e acesso a esse material. Além disso, recomenda-se aos médicos a utilização de aplicativos com certificações de segurança.

3. Realizar media training digital em saúde

Dr. Chao ressalta a importância desse aspecto na relação que será estabelecida com o paciente, pois, segundo ele, é importante “aprender a conversar por meio de uma câmera técnica e um ambiente em termos de iluminação, vestimenta, fundo e vários outros fatores que determinam a criação de uma empatia. Porque nós agora estamos fazendo uma comunicação não presencial via câmera”. Em suma, trata-se de estar preparado para a interação on-line, adaptando aqueles cuidados que já eram estabelecidos na presencialidade.

4. Aprender e saber escolher um sistema de Prontuário Eletrônico adequado

Neste ponto, o professor orienta: deve-se estar atento para “como fazer a prescrição eletrônica, a importância de registrar as informações do atendimento em um prontuário – físico ou eletrônico – e a necessidade de fechamento do atendimento, enviando um cupom de atendimento ao paciente ou um relatório simplificado”. Portanto, é importante que o médico tenha consciência de quais são suas necessidades para a escolha do melhor sistema. É possível encontrar dicas específicas de como selecionar o melhor tipo de sistema de prontuário, inclusive se é realmente vantajoso ou não aderir a um eletrônico ou físico.

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