Quando o médico vira paciente: experiências que somam à carreira

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Para um médico, cuidar é o que move sua prática. Porém, nesse cenário, se colocar no lugar de quem é cuidado, ou seja, de paciente, pode ser uma tarefa difícil. Isso porque muitos profissionais se adaptam à posição de liderança e esquecem que também possuem necessidades e precisam se cuidar. Nos casos em que essa situação ocorre dentro da própria especialidade, tudo se torna ainda mais complicado. Porém, quando o médico vira paciente, diversas experiências, aprendizados e compreensões são somadas à carreira.

Na prática

O cirurgião bariátrico Felipe Koleski, vivenciou essa realidade de se tornar um paciente na própria especialidade. O médico, que já realizou quase quatro mil cirurgias bariátricas, revela que em determinado momento de sua vida passou de uma condição de sobrepeso para obesidade grave grau I. “A partir de 2016, a condição evoluiu para obesidade grave grau II associada a comorbidades (apneia do sono, esteatose hepática e síndrome plurimetabólica)”, detalha.

Ao notar o insucesso em todas as tentativas de tratamento clínico e os bons resultados da cirurgia bariátrica em seu dia a dia, o especialista decidiu se submeter ao procedimento. “Era o momento de provar do meu próprio remédio. Vivenciar o dia a dia como paciente da mesma especialidade que exerço foi realmente uma experiência transformadora em minha vida profissional e pessoal”, destaca Koleski.

Impactos na relação médico-paciente

O especialista passou pelo procedimento cirúrgico após 18 anos de convívio diário com a cirurgia bariátrica. Segundo o profissional, ao abordar a relação médico-paciente, existe um Dr. Felipe antes e outro depois de ser submetido à cirurgia bariátrica. “Passei realmente a ter empatia após viver o que meus pacientes viveram no momento das suas cirurgias” pontua. Entre algumas dessas experiências citadas estão:

  • A preocupação na busca pelos laudos e comprovações necessárias para a liberação da cirurgia;
  • A espera pelo agendamento da data;
  • Fatos ocorridos durante a internação hospitalar e nos primeiros meses de pós-operatório;
  • As mudanças corporais e no paladar e a sensação de frio.

De acordo com Koleski, essas vivências mudaram sua visão sobre empatia. “Consigo informar melhor sobre situações relacionadas ao que esperar da dor e desconforto no pós-operatório. Além disso, falo sobre o que levar para a internação, dicas para melhor aceitação nas diversas fases da dieta pós-operatória e dificuldade na introdução da atividade física como rotina fundamental”, exemplifica.

Experiências compartilhadas

Durante todo esse processo, Koleski produziu um diário com sua evolução pós-operatória e, após seis meses, esse material foi publicado pela Revista Veja. “Segui relatando minha evolução e, com a pandemia, resolvi detalhar tudo que ouvi e vivi nesses 21 anos de cirurgia bariátrica”, conta o médico.

Em fevereiro de 2021, Felipe Koleski lançou o livro Histórias de peso – A obesidade como ela é, em que relata 24 histórias de luta contra a obesidade. Na publicação, os quatro últimos relatos dizem respeito à história do próprio especialista. “Tive a honra de o Professor Dr. João Batista Marchesini escrever o prefácio do livro e relatar que escutou do saudoso e eminente professor Fernando Paulino falar sobre paciente-cirurgião: É fácil ficar do lado do cabo do bisturi. Difícil é ficar na ponta”, enfatiza.

Cirurgia bariátrica como escolha profissional

O médico teve o primeiro contato com a cirurgia bariátrica ainda na residência médica, ao participar das cirurgias de um dos pioneiros da cirurgia bariátrica no Brasil. “Nessa época confesso que a cirurgia bariátrica não me atraiu. Acredito que isso ocorreu porque na residência médica eu queria aprender a operar realizando cirurgias, e nas bariátricas que participei, geralmente, era o terceiro ou o quarto auxiliar” explica.

Na época, o jovem médico em formação ainda não via a real importância do tratamento da obesidade, pois a cirurgia bariátrica já não era uma novidade no universo cirúrgico desde os anos 50. “No fim da década de 90, ao participar de congressos na área de cirurgia e videolaparoscopia, notei que o tema cirurgia bariátrica começou a aparecer mais na programação. Entrei em uma das sessões quase por acaso e o assunto tornou-se muito atraente para mim”, conclui Koleski.

Médico e paciente

Seja na área cirúrgica ou não, os profissionais precisam ter em mente que o autocuidado é fundamental. Além de ser parte essencial para a manutenção do bem-estar, estar no lugar de um paciente proporciona novas visões e perspectivas à trajetória na Medicina. A história de Koleski demonstra com clareza tal afirmação.

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