Por que médicos millennials estão abandonando a profissão?

Desgastes profissionais e sociais provocam evasão na Medicina entre os profissionais mais jovens, diz pesquisa americana

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O cirurgião ortopedista americano Daniel Choi publicou no MedScape um artigo sobre a pesquisa que fez em suas redes sociais acerca da insatisfação dos médicos mais novos em relação ao cenário da Medicina, comentando assuntos como carreira, mercado de trabalho e projeções de futuro.

Segundo Choi, os médicos da geração Y, nascidos entre 1981 e 1996, têm buscado se aposentar precocemente devido ao alto nível de estresse da profissão, além de terem que lidar com questões do mercado de trabalho. Eles listam que fatores como desvalorização, perda de autonomia e prejuízo à saúde mental têm influenciado ainda mais essa decisão.

Os anos de estudos, porém, podem influenciar esses profissionais a permanecer na área – sobretudo nos Estados Unidos –, posto que eles precisam pagar em média US$198 mil de empréstimos estudantis. Acredita-se que os médicos millennials possam mudar essa realidade, visto que eles podem trabalhar a favor de uma Medicina mais organizada. A partir da pesquisa, listamos aqui os principais fatores que levam à opção pela aposentadoria precoce.

Desvalorização

A classe médica é frequentemente culpada pela imprensa de ser a responsável pelos aumentos do valor do serviço médico. A legitimação desse discurso, feita por especialistas, impõe consequências sociais e financeiras para os profissionais. Isso porque tal ação resulta em uma pressão pela diminuição dos salários ou, até mesmo, na substituição desses profissionais por outros mais baratos.

Além de impactar na carreira da classe profissional, o funcionamento em linha de montagem interfere na qualidade dos serviços prestados, visto que será necessário trabalhar mais horas para poder manter-se financeiramente. Dessa forma, a mídia contribui para a precarização do trabalho médico, tanto no sentido quantitativo quanto qualitativo. A comunidade médica se sente pouco valorizada, uma vez que necessitaram investir tempo – que poderia ser utilizado para lazer – e dedicação para sua formação.

Alta demanda

Além de passarem muito tempo ocupados estudando, eles também disponibilizam grande parte do seu dia para o exercício da profissão. Atualmente, com a pandemia de Covid-19, os médicos têm sido muito demandados e, por isso, passam por situações extremas, que os levam ao burnout.

A pandemia contribuiu ainda mais para agravar a situação já alarmante da saúde mental da classe. Há uma estimativa de que, nos Estados Unidos, a taxa de suicídio dos médicos seja o dobro da população em geral. Consequentemente, cerca de um milhão de pacientes perdem seus médicos todos os anos.

No Brasil, de acordo com o levantamento da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), as razões externas – na qual se incluem os suicídios – são apontadas como a terceira maior motivação de mortes médicas, sendo antecedida apenas por doenças no sistema circulatório e neoplasias. Especialistas afirmam que a Medicina em formato de linha de montagem e as pressões das operadoras possuem grande parte da culpa de gerar essa situação incômoda.

Dificuldades da prática privada e perda de autonomia

Muitos médicos millennials não querem trabalhar em consultórios próprios devido às questões burocráticas que envolvem abrir e manter o negócio, mesmo com baixa sustentabilidade financeira – uma vez que eles necessitam estar em constante negociação com operadoras de planos de saúde.

De acordo com o Resident Salary & Debt Report de 2019, apenas 22% dos médicos querem ser proprietários ou sócios de suas clínicas. Em 2018, uma pesquisa da Physicians Foundation by Merritt Hawkins apontou que 31,4% deles se declaravam como donos de seu próprio consultório. Já em 2012, esse número de médicos independentes representava 48,5% deles.

Portanto, podemos observar que o caminho da iniciativa própria vem diminuindo conforme uma nova geração de médicos inicia sua carreira. Consequentemente, esses profissionais têm buscado trabalhar em hospitais.

A pesquisa de 2018, no entanto, apontou que 58% deles não acreditam que o emprego nesses lugares seja uma tendência positiva. Ou seja, a nova geração da classe médica está se condicionando a uma forma de trabalho que não acredita ser positiva, pois o exercício da profissão por conta própria se tornou pouco atrativo financeiramente.

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