Especial Semana do Médico – Antônio Carlos Buzaid

Em 18 de outubro comemora-se o Dia do Médico. E para comemorar essa data especial, o Universo DOC, ao longo de toda a semana, presta uma homenagem a grandes nomes da Medicina brasileira, com matérias especiais publicadas originalmente na Revista DOC. Veja aqui uma matéria exclusiva com Antônio Carlos Buzaid, que na época contou como compra a briga pelo tratamento de seus pacientes

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Com mais de 30 anos de profissão e muitas vitórias no currículo, o oncologista Antonio Carlos Buzaid diz gostar de uma boa briga. Aliás, esse foi um dos motivos de ter optado pela especialidade. Em entrevista especial, o médico relata que, logo depois de formado em Medicina, sentia-se muito incomodado pela desatenção com que se tratavam os pacientes com câncer. Naquela época, relembra, os doentes eram colocados em um canto para morrer, pois ninguém tinha expectativa de cura.

A fim de mudar esse cenário no Brasil, Buzaid foi se especializar fora do país. Hoje, o médico aplica os conhecimentos adquiridos na Universidade do Arizona, na Universidade de Yale e em um dos maiores centros de Oncologia do mundo, o MD Anderson Cancer Center. O especialista participou da criação do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, sob a liderança de Raul Cutait, e, mais recentemente, do Centro de Oncologia Antônio Ermírio de Moraes, da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Nas próximas páginas, você confere um pouco mais sobre a carreira desse experiente médico.

Como começou sua carreira na Medicina?

Desde adolescente, sempre tive muito interesse por Biologia, doenças, inclusive tinha até um pequeno laboratório de experimentos para entender melhor o funcionamento dos órgãos. Por isso, foi uma decisão relativamente simples. Sempre quis ser médico.

Como foi sua trajetória profissional? E por que o interesse pela Oncologia?

Aos 18 anos, entrei na Universidade de São Paulo (USP) para cursar Medicina. Sempre gostei dos casos mais complexos. Quanto mais difícil, mais despertava o meu interesse. E, naquela época, a Oncologia era a disciplina menos valorizada. O doente com câncer era, de certa forma, colocado em um canto para morrer. Isso era algo que me incomodava muito. Por isso, determinei que precisava sair do Brasil para estudar a especialidade no exterior. Só assim conseguiria ajudar esses pacientes que, a meu ver, não estavam tendo a devida chance para lutar contra a doença. Passei por uma série de exames difíceis e consegui ir para os Estados Unidos. Fui estudar na Universidade do Arizona, em Tucson, por três anos, onde fiz uma especialização (fellowship) em Hematologia/Oncologia. Quando estava para voltar ao Brasil, fui convidado para ser professor na Universidade de Yale, onde fiquei por quatro anos. Lá, fui diretor da Unidade de Melanoma e codiretor da Unidade de Câncer de Pulmão. Depois disso fui para o MD Anderson Cancer Center, em Houston, no Texas, onde fui diretor do Centro de Melanoma e Câncer de Pele por cinco anos.

Como é lidar com uma especialidade em que os pacientes estão tão frágeis emocionalmente?

Eu diria que a Oncologia é uma das mais duras especialidades da Medicina, no que concerne ao emocional do médico. Existe um cansaço em relação à prática do que eu faço, que é o cansaço psicológico. Perder pacientes e não conseguir ajudá-los quando fazemos um grande esforço para isso resultam, no médico, em um grande desgaste emocional. Choramos por dentro.

Qual a experiência mais marcante em seus mais de 30 anos como médico?

As experiências mais marcantes são sempre com pacientes. Uma das mais inesquecíveis foi quando eu ainda era residente na USP. Chegou um homem com uma parada cardiorrespiratória, uma pessoa muito simples, um sem-teto. Nós ressuscitamos essa pessoa, ele ficou bem, se recuperou e foi embora. Alguns meses depois, um homem maltrapilho me abordou na rua. Achei que era um assalto ou algo do tipo, e o rapaz fala: “Doutor!”. Eu não estava vestido de branco, por isso estranhei, e o rapaz continuou: “Foi o senhor quem me salvou lá no Hospital das Clínicas”. Fiquei bastante sensibilizado com a abordagem, pedi desculpas, pois achei que se tratava de um assalto. Ele disse que só queria me agradecer, pois na ocasião não teve chance para isso. Outras experiências, muito marcantes também, são os pacientes que conseguimos ajudar. Já curamos muitos casos de melanoma, que são bem difíceis. Recebo grandes agradecimentos e isso sensibiliza muito. Ganho tantos presentes, que às vezes não tenho onde colocar.

Na sua especialidade, os tratamentos são longos e chegam a durar meses ou anos. Qual a estratégia para superar as barreiras emocionais e fazer com que o paciente decida se tratar?

Nós temos a tendência em ser otimistas, em geral. Entro em briga para tentar ganhar, embora ciente que as chances de vitória sejam pequenas. Brigo com 100% de esforço, mesmo que tenha 1% de chance de ser bem-sucedido. Esse tem sido o meu lema desde que me formei em Medicina. Acho que a única maneira de se vencer uma briga é entrar com 100% de esforço para ganhar. E os pacientes percebem isso. Vou ao limite, brigo por isso, me esforço. Uso meus finais de semana para mandar e-mails para colegas de fora do Brasil e estudo uma média de dez horas por fim de semana. Realmente visto a camisa da briga do paciente para tentar ajudá-lo. Já tivemos dezenas de casos em que o doente quis jogar a toalha e nós o ajudamos a brigar. Nesses casos, a pessoa fica muito grata por não termos desistido dela.

Quais são os maiores desafios que a Oncologia encontra no Brasil?

Nós temos vários tipos de desafios para vencer. O próprio câncer é um grande desafio. Ainda não curamos a maioria dos cânceres avançados. No Brasil, especificamente, o maior problema é relacionado à aprovação das drogas, que é bem mais lenta do que nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo. Isso faz com que nossos pacientes sejam privados de medicações importantes. Além disso, essa postura acaba estressando a pessoa, que precisará comprar uma droga cara fora do país. Já é estressante ter o câncer e ainda há essa outra complicação, pois existem vários medicamentos não disponíveis em nosso mercado.

Como você avalia o Sistema Único de Saúde (SUS) nesse aspecto? O que pode ser feito no SUS para melhorar o atendimento a pacientes com câncer?

O que pode ser feito para melhorar o SUS é fomentar protocolos de pesquisa clínica que ofereçam aos pacientes sempre os tratamentos mais avançados. Isso é o que deveria ser fomentado no Brasil. A Alemanha é um país que conseguiu fazer isso muito bem.

Você lançou recentemente um manual para leigos, o livro Vencer o câncer. Como foi desenvolver o projeto?

Esse livro tem também um site, o <www.vencercancer.com.br>. Foi desenvolvido pelos médicos Fernando Maluf, Drauzio Varella e por mim, com foco nos pacientes, familiares e pessoas em geral que tenham interesse sobre o assunto. O site tem uma qualidade impressionante. Temos mais de 200 vídeos educacionais. Todos os capítulos do livro têm vídeos explicativos. Então, além de poder ler o texto, a pessoa ouve uma explicação minha, do Fernando, do  Drauzio e de outros experts do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Além disso, temos depoimentos como o da apresentadora Ana Maria Braga, por exemplo. Todo paciente que tem um problema oncológico deve entender melhor sua doença para que possamos ajudar a combater o “bandido” da melhor forma. Um maior entendimento do inimigo aumenta as chances de vencermos a guerra.

Como sua experiência fora do país tem contribuído para um melhor desenvolvimento da Oncologia no Brasil?

Depois que fiquei quatro anos na Universidade de Yale, fui para o maior hospital de câncer do mundo, o MD Anderson Cancer Center, em Houston, no Texas. É um hospital muito grande, com foco apenas em câncer. Tem mais de 600 leitos só para a Oncologia, e o nível de qualidade mais elevado do mundo. Além disso, a pesquisa é muito avançada. Atuei como diretor do Centro de Melanoma e Câncer de Pele desse hospital por cinco anos. Consegui trazer minha experiência administrativa e de pesquisa para o Brasil. Em 1998, montamos o Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, que tinha como diretor-geral o médico Raul Cutait, enquanto eu atuava como diretor-executivo. Há três anos viemos para a Beneficência Portuguesa e estabelecemos o Centro de Oncologia Antônio Ermírio de Moraes, que hoje também é considerado uma das maiores referências no Brasil. Eu considero uma honra e um privilegio fazer parte do time da Oncologia desse centro de saúde.

Como você avalia o cenário da Medicina no Brasil?

A Medicina privada no nosso país se compara com a Medicina de ponta de qualquer país no mundo. Quanto à pesquisa clínica e de laboratório, estamos bastante atrás. A Medicina do SUS deixa muito a desejar quando comparada a países de Medicina socializada, como Inglaterra, Canadá, entre outros. A pesquisa clínica é uma estratégia sem custo que o governo pode usar para rapidamente melhorar a saúde pública no país.

Especial Semana do Médico: clique aqui e confira a entrevista especial com Ivo Pitanguy

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