Especial Semana do Médico – Os segredos de Pitanguy

Em 18 de outubro comemora-se o Dia do Médico. E para comemorar essa data especial, o Universo DOC, ao longo de toda a semana, presta uma homenagem a grandes nomes da Medicina brasileira, com matérias especiais publicadas originalmente na Revista DOC. Veja aqui uma entrevista exclusiva com Ivo Pitanguy, que na época revelou seus segredos para alcançar o sucesso na carreira

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Misture uma grande quantidade de perseverança com uma vocação que vem de berço. Bata bem com porções diárias de dedicação por várias décadas. Acrescente à mistura bastante competência, qualidade e pitadas de sorte na medida correta. Saiba dosar também a hora certa de agir, recuar e refletir para não deixar a massa desandar. Peça a ajuda de seus colaboradores e não se esqueça de estar sempre em contato com o seu cliente para ouvir suas opiniões. Não deixe a mistura descansar: ao contrário, quanto mais alegria e disciplina você adicionar todo dia, melhor será o resultado. Ao final, colha os louros da vitória.

Esta poderia ser a receita de sucesso de um dos mais renomados médicos do Brasil e do mundo: o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Com mais de seis décadas de atuação na Medicina, o mineiro de Belo Horizonte construiu uma carreira sólida e exemplar com os ingredientes já citados: perseverança, dedicação, disciplina, alegria, qualidade e competência. A vocação veio desde muito cedo. Filho de um cirurgião geral, Pitanguy queria seguir os passos do pai, mas não imaginava tornar-se uma referência mundial na sua área de atuação.

“Eu não pensava em ser cirurgião plástico. Ao terminar o curso secundário e iniciar minha formação, meu sentimento era o de ser visceralmente médico”, conta Pitanguy na abertura de seu livro mais recente, Cartas a um jovem cirurgião. No início da sua carreira, o médico diz que precisava explicar às pessoas o que fazia um cirurgião plástico. Com o crescimento da especialidade nas últimas décadas, agora, o desafio é não deixá-la cair na banalização que a chamada “indústria da beleza” causa. “A mídia mal-empregada promove isso”, critica.

Apesar de todo o seu inegável sucesso profissional, Ivo Pitanguy se recusa a dizer que planejou tudo isso. Sua fórmula de êxito na carreira resume-se ao amor que emprega ao atender seus pacientes e ao idealismo que ele acredita ser a base fundamental da Medicina. “Mais do que em qualquer outra profissão, o médico, além do seu ideal, deve ter amor a sua carreira. Agora, todas estas coisas se confundem. As palavras, às vezes, querem definir o indefinível”, ressalta o cirurgião plástico e também imortal da Academia Brasileira de Letras.

Em entrevista especial, Ivo Pitanguy conta mais sobre a sua receita de sucesso. Além da relação médico-paciente como norteadora fundamental, o cirurgião plástico fala da importância de o profissional construir um relacionamento de respeito mútuo com os seus colegas e de o médico contar com bons colaboradores. Nesse sentido, Pitanguy destaca que confia tanto em suas secretárias que são elas que definem o valor das suas consultas e cirurgias. “Sou mineiro e não falo muito de dinheiro”, justifica. Leia a seguir a entrevista completa.

Em seu livro Cartas a um jovem cirurgião, você usa três palavras como subtítulo do livro: perseverança, dedicação e alegria. Estes são os ingredientes que compõem a receita de sucesso para um médico?

Estes são os ingredientes para se ter sucesso na vida. Quando temos um ideal que nos faz sentirmos vivos e atuantes e queremos levá-lo adiante, é preciso ter disciplina. Mais do que em qualquer outra profissão, o médico, além do seu ideal, deve ter amor a sua carreira. Agora, todas estas coisas se confundem. As palavras, às vezes, querem definir o indefinível. O importante é que dentro disso tudo existem uma vontade e uma capacidade enorme para conduzi-la. Por isso, o médico também precisa ter uma boa saúde e, ao mesmo tempo, lidando com o ser humano, tem que gostar do outro. Este gostar o fará buscar o mais importante, que é a compreensão do outro, sem impor a sua forma de ser e pensar.

Este conceito a que você se referiu é a empatia, um dos alicerces de qualquer boa relação. Como ela se traduz no atendimento aos pacientes?

Com tudo isso a que me referi, o médico passa a ter uma das coisas mais importantes da sua profissão, que é a empatia, voltando ao seu sentido hipocrático, de que não existem pessoas diferentes. Existem doentes e não doenças a serem tratadas. Cada fenômeno tem uma maneira diferente de se manifestar em cada um de nós. Conhecer a Fenomenologia faz com que o médico seja um grande estudante e isso deve estar presente desde o início da sua formação.

E como o médico demonstra no dia a dia essa empatia e a importância que o paciente tem para a sua profissão?

Ele não demonstra. O médico atende bem os seus pacientes quando consegue compreendê-los. Dentro da Medicina, mesmo compreendendo o paciente, existem vários imponderáveis, pois o que pedem ou o que podemos fazer, às vezes, é bem menos do que gostaríamos. Mas se nós pudermos partir da compreensão daquilo que se procura, isso gera uma avaliação positiva. É aquele profissional que já recebe o paciente lhe dando algo de positivo, pois mais do que ter a vontade de curá-lo, o médico precisa ter a vontade atendê-lo.

No seu livro, você explica a origem da palavra consultar, que significa deliberar em conjunto. Você acredita que hoje os médicos se preocupam em ouvir o paciente ou muitos ainda agem como únicos detentores do conhecimento?

Não me cabe aqui julgar os outros, mas a meu ver, é muito importante que exista esta vontade de atender e que o paciente esteja consciente dessa vontade. Não é uma questão de tempo, mas de intenção. A interação com o paciente pode ser rápida, longa ou nem existir. Todas as vezes em que ela não existe, é porque não há uma boa compreensão do outro. Muitas vezes, o que o paciente pede, sobretudo na minha especialidade, pode estar muito além das minhas possibilidades. Então, eu tenho que explicar as minhas intenções para que ele entenda o que pode ou não ser feito.

A formação do médico, hoje, é considerada muito tecnicista. Como o profissional dosa essa formação com uma carreira que exige cada vez mais uma atuação humanista?

Isso não acontece só com o médico. Hoje, o ser humano está muito voltado para a parte tecnológica e pouco voltado para si mesmo. Ele vê muitas coisas, talvez até mais do que tínhamos anteriormente, mas tem menos tempo de reflexão. E a reflexão é que dá a cada fato a sua profundidade, de modo a fazer o nosso cérebro concatenar as ideias, associá-las e extrair uma forma de ser, uma conduta ou um pensamento. É importante, portanto, ter um sentido mais humanístico na vida, ou seja, uma formação em que você tenha um interesse amplo pelo mundo e pelas coisas que o estruturam. O fundamental também é que isso faça parte da sua carreira profissional, independente de você ser médico ou não. Agora, no caso do médico, ter uma base humanística é muito importante para relacionar-se bem com os pacientes.

No início da sua carreira, você teve forte contato com comunidades carentes. Hoje, poucos médicos recém-formados vivenciam este tipo de experiência. Até que ponto o trabalho social de um médico influencia o seu crescimento e a consolidação de sua carreira?

Tenho até hoje esse contato com comunidades carentes. Felizmente, o Brasil vem apresentando nos últimos anos um certo progresso nessa questão, embora ainda existam muitas comunidades carentes, o que observamos nos ambulatórios e hospitais gerais. Essa experiência, a meu ver, me enriqueceu muito. A Medicina tem essa facilidade. Podemos nos aproximar de quem for sem que seja preciso fazer algo de extraordinário, a não ser cumprir com o nosso dever de médico. Todos são iguais, independente de crença ou classe social. Agora, a comunidade carente é a faculdade real. Quando vim de Belo Horizonte, comecei a trabalhar no pronto-socorro e andava nas ambulâncias. Conheci o Rio de Janeiro não pelos salões, mas pelas favelas. Senti que, no meio de todas aquelas pessoas, existia uma vida muito grande, bastante intensa e um sentido humano igual ou até maior do que em outro lugar. Hoje, tudo ficou mais rápido e até mais superficial, mas existem médicos que ainda têm essa oportunidade, que é importante para se conhecer um pouco mais do próprio ser humano.

Você defende que a Cirurgia Plástica é uma só – não há como dissociar a Estética da Reparadora. Por que você defende isso?

Quando eu comecei, nós tínhamos a necessidade de explicar a Cirurgia Plástica para aqueles que não conheciam o que ela poderia fazer. Hoje, existe uma tendência de uma mídia mal-empregada, que banaliza a Cirurgia Plástica, o que é algo totalmente errôneo. O cirurgião plástico é um médico, como qualquer Centro de estudos da Clínica Ivo Pitanguy reúne médicos e residentes outro, que diante de um paciente é um ser pensante, que apresenta alternativas para o indivíduo. Então, é muito importante você “sentir” essa pessoa que está a sua frente, para que possa atuar adequadamente. Quando o médico está diante de uma pessoa que pede ou quer algo que o profissional não deve fazer, ele deve explicar o porquê. É preciso mostrar ao paciente a melhor forma de ele se ver. Muitas vezes, a pessoa não se vê de uma forma natural e o médico deve perceber que ela necessita de um psicoterapeuta e não de um bisturi. Com frequência, o paciente não tem uma indicação cirúrgica, o que só é detectado quando se começa a entender o que aquela pessoa quer e como ela pensa.

Mas como o médico lida com essa “indústria da beleza”, que por vezes chega a banalizar a Cirurgia Plástica?

Em toda atividade humana, infelizmente, sempre que uma atividade começa a ter um sucesso, surgem o charlatanismo ou a banalização daquela atividade. No momento, a Cirurgia Plástica adquiriu, no Brasil, uma posição muito importante, não só por minha causa, mas também por conta de outros colegas, que a difundiram de uma forma eficiente. Hoje, o Brasil é um país onde, em quase todos os estados, existem cirurgiões plásticos muito bem formados. É óbvio que no meio disso existem pessoas menos preparadas ou que usam métodos de marketing errôneos, eticamente ruins. O importante é que a pessoa veja a Cirurgia Plástica com seriedade e não, como mostrado na mídia, de uma maneira superficial.

Como dito anteriormente, você já chegou a recusar cirurgias por conta do comportamento psicológico do paciente. Esta é uma forma também de se precaver de possíveis processos judiciais?

O termo é recusar, mas na verdade é não aceitar fazer a cirurgia. Quando a pessoa nos procura, ela quer que façamos alguma coisa. Porém, muitas vezes, a encaminhamos a uma compreensão melhor da sua deformidade. Naquele momento, não devo fazer o que não deve ser feito. Agora, em relação a processos judiciais, a meu ver, a pessoa não deve trabalhar para se precaver de nada. O médico deve trabalhar para atender bem o outro. Esta é a melhor forma de estar em lisura com a sua profissão e consigo mesmo. Eu acho que não se deve fazer nada porque não se quer ser repreendido, mas sim, pela força do que aquilo representa na sua essência. Você não faz um gesto cristão para não ser preso. Evidentemente, se você não roubar ou não matar, não será preso. É algo que está dentro da sua conceituação de ética, da sua personalidade e da maneira pela qual você pensa.

Quem acerta o valor das suas cirurgias são as suas secretárias, diretamente com os pacientes. Por que você optou por esta forma de negociação?

O médico não pode ser mercantilista. Sou mineiro e não falo muito de dinheiro. Aprendi a considerar que falar de dinheiro é uma coisa feia. Por outro lado, acho que o médico deve estar preparado para orientar a sua secretária. Ela deve conhecer o preço normal dos procedimentos ou os custos que o paciente teria com a cirurgia. O médico deve ter o direito de atender quem ele quiser, porém nem sempre a pessoa pode pagar o valor que o profissional cobraria normalmente. Não cabe ao médico fazer essa diferenciação, mas ele precisa instruir que o paciente seja atendido de alguma forma. Se for impossível, a secretária pode encaminhá-lo para um hospital geral, por exemplo.

Como selecionar uma secretária a ponto de ter total confiança nela?

Não existem regras, mas no meu caso, como tenho clientes do mundo todo, a secretária tem que falar idiomas, até mesmo para se fazer compreender pelo paciente. Mesmo que a secretária só precise saber Português, a orientação é a mesma: que ela se faça compreender. Além disso, a secretária tem que entender a personalidade do médico, com um forte lado humanista. Tenho secretárias que estão comigo há mais de 20 anos e elas já me entendem. Eu falo: “quero atender aquela moça” e não vou me preocupar com o preço, porque tenho total confiança nas decisões que as minhas secretárias tomarão. Agora, toda essa confiança o médico estabelece com o convívio, o que faz a secretária absorver a sua maneira de ser. A secretária tem que saber atuar no atendimento da maneira que o médico atuaria se estivesse naquela posição.

Além da relação com o paciente e com a secretária, o médico também se relaciona muito com outros médicos. Como se constrói uma boa relação com os colegas de profissão?

A relação com outro colega parte de um respeito mútuo. É muito importante você ter respeito pelo seu colega, mesmo que você sinta que ele não tem preparo ou competência. Não precisa falar mal, mas também não precisa elogiar. Recentemente, operei uma paciente com sequelas de uma rinoplastia, que tentou ser operada com outros dois médicos. Era um caso complexo e não critiquei o que havia sido feito, pois não assisti às cirurgias. Não cabia a mim criticar. Eu tenho é que, a partir daquele ponto, decidir o que fazer. O respeito ao outro colega é muito importante. Não é falso corporativismo. O respeito entre os colegas de profissão é importante até para não tirar do paciente a esperança e, sobretudo, a confiança na causa médica.

Em certo momento da sua vida, você se tornou um professor para os médicos iniciantes. Como o médico sabe que é hora de passar seu conhecimento adiante?

Eu acho que a hora certa é o momento em que aprendemos. Quando sabemos alguma coisa, está na hora de ensinar. A Medicina é uma das poucas carreiras em que se tem prazer de transmitir conhecimento. Em uma grande empresa de outra área, o conhecimento ali é considerado propriedade e não se passa adiante. Existe até o espião industrial, que rouba o conhecimento. Na Medicina, é o contrário. Nós temos não só a obrigação como o prazer de passar o conhecimento adiante, o que é uma das partes mais importantes da nossa boa prática médica.

Mesmo após se tornar uma referência na Medicina, você ainda se preocupa com sua imagem? O que todo médico deve fazer para que não haja prejuízo para a sua imagem?

Eu não faço nada para que não haja prejuízo para a minha imagem. Faço todas as coisas que um ser humano deve fazer para que fique bem com a sua consciência, e não para mostrar aos outros o que deve ser feito. Se ele pensa assim, é errôneo. A pessoa deve fazer as coisas dentro de um conceito de formação, que é familiar. O médico começa em casa, com a família. Então, ele pode ser um médico, um engenheiro ou um jornalista e o seu comportamento será o mesmo, com dignidade e respeito ao outro. Isso é muito importante. Agora, no dia a dia, a vida é uma luta permanente. Nenhum de nós, infelizmente, é um candidato à eternidade, de modo que é importante que o presente seja vivido com intensidade, como se aquele fosse um dia único.

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